Emigrar sempre foi um desejo que meu marido e eu compartilhamos. Durante muito tempo, quando falávamos sobre viver fora do Brasil, o destino que aparecia nas nossas conversas era o Canadá. Portugal nunca tinha sido uma possibilidade real.
Mas a vida foi acontecendo.
Veio nossa primeira filha, a rotina mudou, as prioridades também, e aquele desejo de emigrar foi ficando adormecido em algum lugar entre trabalho, maternidade, contas, trânsito e os dias corridos de São Paulo.
Até que chegou um momento em que a vida que tínhamos já não cabia mais na nossa família.
No final de 2016, a rotina começou a pesar de uma forma difícil de ignorar. Saíamos muito cedo de casa, deixávamos nossa filha pequena com a minha mãe — que foi uma presença essencial naquela fase — e enfrentávamos, todos os dias, cerca de cinco horas de trânsito entre ida e volta do trabalho.
Cinco horas.
Cinco horas que não eram só deslocamento. Eram cansaço acumulado, ausência, irritação, culpa, preocupação e a sensação constante de que estávamos gastando a vida num ritmo que nos adoecia aos poucos.
Eu via meu marido cada vez mais irritado, mais cansado, mais doente. E o medo começou a bater forte.
Foi nesse contexto que surgiu uma proposta de trabalho para ele em Belo Horizonte. Naquele momento, pareceu uma boa oportunidade. Talvez ali encontrássemos uma vida mais tranquila, com mais qualidade, mais tempo e menos sufoco.
Não era uma mudança simples. Significava sair de São Paulo, afastar-nos da família, dos amigos, da minha mãe — de quem sempre fui muito próxima — e recomeçar num lugar onde eu não conhecia nada nem ninguém.
Para mim, também significava deixar meu emprego e pausar minha vida profissional.
Ainda assim, havia uma esperança. Estaríamos em outro estado, mas ainda no Brasil. A distância da família doeria, mas não parecia impossível. Algumas horas de viagem poderiam silenciar a saudade quando ela apertasse demais.
Então decidimos tentar.
Meu marido foi primeiro para Belo Horizonte. Durante três meses, vivemos separados: ele lá, com a missão de encontrar uma casa para nós; eu em São Paulo, organizando a mudança, cuidando da nossa filha e preparando minha saída do trabalho.
Foi um período de muito estresse, dúvidas e saudade. Mas havia também uma certeza: não podíamos continuar com a família separada.
Em fevereiro de 2017, mudamo-nos oficialmente para Belo Horizonte.
No início, tudo parecia apontar para um recomeço possível. Fomos bem recebidos pela proprietária do imóvel. Havia uma boa escola para a minha filha do outro lado da rua. Eu finalmente teria tempo para fazer uma pós-graduação numa área que me interessava muito. E, assim que minha filha estivesse mais adaptada, eu voltaria a procurar emprego.
Parecia que, depois de tanto cansaço, a vida estava nos oferecendo uma pausa.
Mas nem todo recomeço acontece como imaginamos.
"Nem todo recomeço nasce de um sonho. Às vezes, ele nasce do cansaço de continuar igual."
Aos poucos, aquilo que parecia ser um lugar de qualidade de vida começou a se tornar uma fase muito difícil. Por causa de uma chefia tóxica, o trabalho que havia levado meu marido para Belo Horizonte transformou-se num ambiente insuportável para ele.
Ao mesmo tempo, minha recolocação profissional — que eu acreditava que seria rápida, afinal eu tinha experiência — tornou-se muito mais difícil do que eu esperava.
Eu estudava, tentava me manter ocupada, mas comecei a me sentir triste, desmotivada e deslocada. A solidão apareceu de um jeito silencioso. As pessoas não se abriam facilmente para novas amizades, e eu sentia falta da minha rede, da minha mãe, dos meus amigos, da familiaridade de São Paulo e de um lugar onde as pessoas conheciam meu trabalho.
Em casa, os problemas também começaram a crescer. O estresse acumulado foi afetando o nosso relacionamento. Como casal, fomos parando de conversar de verdade.
E, no meio de tudo isso, estava nossa filha.
Minha filha começou a demonstrar sinais de esgotamento emocional. Sentia-se excluída por alguns colegas da escola e, aos poucos, ficou evidente para nós que aquele recomeço não estava sendo o que imaginávamos.
Foi doloroso admitir isso.
Porque mudar de cidade já tinha custado muito. Custou meu trabalho, nossa proximidade com a família, nossa estabilidade emocional e a sensação de pertencimento que eu tinha em São Paulo.
E, mesmo assim, parecia que tínhamos errado o caminho.
Por volta de agosto de 2017, um amigo nos apresentou uma possibilidade de emigrar para Portugal com visto de trabalho, numa oportunidade ligada à área do meu marido.
Foi assim que Portugal entrou na nossa história.
Não como um sonho antigo. Não como uma escolha romântica. Não como uma decisão leve.
Portugal apareceu quando estávamos tentando entender se deveríamos voltar para São Paulo ou seguir por um caminho completamente novo.
Conversamos muito. Colocamos na balança os prós e os contras. De um lado, havia a possibilidade de voltar para uma cidade que conhecíamos, perto da família, dos amigos e da minha rede profissional. Do outro, havia uma oportunidade fora do país — incerta, desafiadora, mas também cheia de possibilidades.
O que pesou na nossa decisão foi lembrar por que tínhamos saído de São Paulo.
A vida sem tempo para respirar. As horas no trânsito. Os empregos que consumiam demais. A sensação de insegurança. O medo de voltar ao mesmo ponto de partida e perceber, alguns meses depois, que nada tinha realmente mudado.
Foi isso que nos fez seguir.
Durante o processo do visto e das entrevistas, ainda enfrentamos mais um susto: meu marido precisou fazer uma cirurgia de emergência para retirar a vesícula. Estávamos longe da família e tivemos que lidar com tudo praticamente sozinhos.
Pouco depois, no retorno da licença médica, ele foi demitido.
A toxicidade venceu naquele trabalho.
Mas, dentro de nós, o caminho já estava decidido.
Organizamos nossas coisas, comunicamos a saída do imóvel, lidamos com burocracias, encerramentos e pendências, e voltamos para São Paulo — mas dessa vez com data marcada para partir.
Já não era um retorno definitivo. Era uma passagem. Uma despedida prolongada antes de atravessar o oceano.
No período entre a decisão e o embarque, fiz inúmeras pesquisas. Entrei em grupos no Facebook, tentei falar com pessoas que já estavam em Portugal, procurei informações práticas, relatos reais, orientações que me ajudassem a entender o que estava por vir.
Mas a sensação era de caminhar no escuro.
Havia muita informação espalhada, muita opinião contraditória e pouca orientação realmente útil para uma família com filhos tentando emigrar. Eu sentia falta de alguém que dissesse, com clareza e honestidade: “olha, talvez seja assim; talvez você precise se preparar para isto; talvez ninguém te conte esta parte”.
A despedida foi dolorida.
Houve muito choro, muita incerteza e o peso de tudo o que já tínhamos vivido naquela primeira tentativa de mudança. Mas também havia uma espécie de coragem silenciosa. Não aquela coragem bonita dos discursos prontos, mas a coragem cansada de quem olha para a própria vida e entende que não dá mais para continuar igual.
Seguimos para o Aeroporto de Guarulhos com o coração apertado e a vida inteira reorganizada em malas.
Naquele momento, eu ainda não sabia o que nos esperava do outro lado do oceano.
Só sabia que voltar ao ponto de partida já não parecia possível.
"Naquele embarque, eu levava malas, medo, esperança e a sensação de que já não havia como voltar a ser quem eu era antes."
Seguimos para o Aeroporto de Guarulhos com o coração apertado e a vida inteira reorganizada em malas.
Naquele momento, eu ainda não sabia o que nos esperava do outro lado do oceano.
Só sabia que voltar ao ponto de partida já não parecia possível.



